Cachorro morto

Deixa a água cair sobre a cabeça e escorrer pelo corpo enquanto rumina as coisas que não cabem no tempo do trabalho forçado. Aí vêm as melhores ideias, as melhores imagens, os textos mais inspirados. Dali saem os fantasmas amigos que o acompanham durante o dia, durante alguma reunião ridiculamente inútil ou quando consulta os vaivéns da bolsa. No escritório, ele é como se fosse dois vivendo em sincronia perfeita: um traça planos, destrincha projetos e lê planilhas incomensuráveis sem perder um detalhe; o outro não se separa de suas figuras alegres, das paisagens de sol, mar e mulheres apetitosas sem interferir nas ditas atividades sérias. Mas existe uma zona entre a atenção e a sombra onde as lembranças se arrumam umas junto às outras, misturam um pouco suas matérias, em ordens de prioridade que nem a vontade nem a razão determinam; essa zona define as pessoas e faz a alegria dos analistas. Cada sujeito é um país de revoluções desproporcionais. Isso talvez explique por que algumas ações são como frutos de uma árvore que não deu flores.
Num desses momentos, nu e liberto, resolve pôr fim à ditadura aparentemente inexpugnável de seus chefes e dar uma oportunidade às próprias convicções, devidamente adaptadas, pelo menos há vinte anos fechadas a várias chaves. Levaria algum tempo para vencer os impedimentos de praxe, tanto os que vêm de fora quanto os que crescem como cartilagens em torno de um corpo estranho na carne da vontade. Esse desejo, que deve perder a cor da revolta, terá que ganhar novos tons que o tornem aceitável aos olhos do mundo. A ideia o empolga tanto que não percebe que escorregara na utopia pessoal, logo ele, que acredita que a única utopia pensável seria a histórica, se mesmo essa não estivesse desacreditada depois de haver ruído no muro de Berlim.

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Logo que a manhã começou a amadurecer, Cachu se ergueu nas patas dianteiras e arfou um pouco balançando as orelhas. As unhas roçavam de leve o chão de pedra, que já começava a esquentar. O corpo fazia pressão sobre as almofadas das patas escuras, escorregando um pouco para frente enquanto ele se apoiava. Coçou o pescoço com a pata traseira e olhou para o céu bem claro. Expressava sua conformidade de cachorro na lentidão dos movimentos, apesar dos músculos fortes. Olhava sem razão, olhava pressentindo sem entender, sem pose nenhuma, sem a pretensão à dignidade que parecem exibir um galgo ou um pastor. Era somente um bóxer, um cachorro duro na queda e um pouco estúpido. Semicerrara os olhos lacrimejantes e não sentia o fio de baba pendendo da língua comprida e da beiça de bordas escuras viradas para fora, sempre molhadas, gotejando. Ultimamente ficava sentado sobre os quartos traseiros, as pernas enviesadas para frente, e parecia pensar.
No verão, procurava os recantos mais sombrios do jardim, escondia-se com olhos de medo se estendendo até onde podiam alcançar e às vezes pegava de novo no sono. Os zumbidos de insetos e os ruídos da rua não pareciam incomodá-lo. A menos que alguma abelha ou joaninha viesse pousar em seu focinho, desfocalizando a visão, ou ameaçasse suas orelhas com ruídos e cócegas que pareciam penetrar cabeça adentro, o barulho exterior o ajudava a dormir. Uma fusão áspera, como se muitos chicletes se juntassem amassados com areia nas mãos de uma criança. Seus raros latidos eram apenas suficientes para dar a entender que alguma coisa o perturbara. As formigas passeando na ração eram um capítulo à parte e podiam tirá-lo do sério, o que não chegava a fazer muita diferença. Latia e pronto. Latir era a força capaz de fazê-lo notado, ainda que lhe valesse algum passa-fora. Mas eram latidos oportunistas, de ocasião, talvez só uma desajeitada tentativa de espantar as formigas ou os fantasmas que se atravessassem em seu caminho.
Olhava o portão com uma lembrança muito vaga de andar na calçada e cheirar a terra espalhada, os matinhos do caminho, os restos de comida através dos sacos de lixo, ainda que sua dona nunca lhe permitisse parar para provar alguma coisa. Melhor ainda era levantar a perna junto a um poste, a uma árvore, para experimentar o alívio da urina saindo quente, e depois seguir para repetir esse prazer alguns metros adiante. Já não ia para a rua, por algum motivo do qual nem cogitava em sua cabeça de cachorro, mas não ia e isso era rudimentarmente triste, mesmo para ele. Ficava sempre do lado de cá do portão, esticando às vezes o nariz para os cheiros da rua, atento o quanto lhe era possível aos quinze anos de vida.
As pernas não o aguentavam muito tempo, acabava deitando ou pousando sobre os quartos estirados, na frente do portão, como se pensasse. O calor o cansava, ficava ofegante, a língua mais pendurada que de costume, as pálpebras querendo fechar a todo instante, mas o sono era uma inquietação enquanto durasse a luz do dia. O calor pesava sobre as costas grisalhas; acabava despertando com um estremecimento de susto, para logo tentar de novo. Tudo agora lhe parecia distante e nevoento, e um vago zumbido que há muito tempo não cessava dentro de seus ouvidos.

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Luba termina seu banho e rapidamente salta para o pequeno tapete felpudo. Está um pouco atrasada e se aflige por isso, mas não abre mão dos cremes, da água de colônia, da pintura dos olhos, da escova no cabelo, do batom, obrigações sagradas para quem vai sair de casa. Sua forma conhecida de esperança. Dormira muito mal, mas isso não lhe dava vontade de voltar para a cama. Mesmo não sendo uma data para ficar na história, um dia é um pedaço de tempo. Desperdiçar um dia, em todo caso, é uma fantasia difícil – e tentadora – que pode levar a uma cadeia de prejuízos e azedar a vida. Pode ser uma aventura ficar o dia todo na praia, encontrar, quem sabe, um homem inesquecível e mudar de casa, de itinerário e de roupa para sempre. Ou fugir para o cinema, comprar móveis novos ou dormir até as quatro da tarde e depois ir dançar como se nada tivesse acontecido. Mas essas coisas não passam de uma fantasia, necessária para reforçar a energia “certa”, que leva a zelar pelos horários, por objetos do dia-a-dia, pelas palavras que iria dizer às pessoas que cruzassem seu caminho. Está programada para a exatidão, e uma emoção transbordando pode estragar tudo como uma metade podre de maçã decepciona o prazer de quem a morde.
Remo tinha feito isso com ela. Tinha se transformado num robô por causa dele, unicamente por causa dele. Sabe, embora jamais o confesse nem a si mesma. Encontraria com ele na fila do elevador, no corredor, na sala a sua espera. Prefere chegar antes, estar lá como se disso dependessem a felicidade dele, a tranquilidade dela e o equilíbrio do mundo. O equilíbrio entre o tônus e os sentimentos não é coisa de amador e se orgulha um pouco de consegui-lo, embora não tenha o mau gosto de se gabar nem a ingenuidade de se julgar superior por isso. Só não pode evitar ansiedades eventuais, caso em que substitui o equilíbrio sereno por outro, improvisado, rascante, que pode revelar uma veia de ironia ou de surpreendente comicidade, conforme lhe permitirem as reservas e as circunstâncias. Nunca no entanto perde um certo âmago de paz, ainda que alguém a denegue ou lhe falte um apoio esperado. Chorar, com ou sem lágrimas, não é insuportável, é quase um consolo fluindo mansamente, parte de seu show.
Nessa manhã em particular está impregnada de esperança sem fundamento. Como se ainda fosse muito jovem. Joga a toalha sobre as costas, alonga a perna sobre a bancada da pia e observa umas lentas pontas de cabelo aparecendo ao longo da pele, ainda um pouco dourada das férias de janeiro. Cerca as unhas de olhares suspicazes, vira o pé para examinar a sola, o calcanhar meio áspero por causa das sandálias de verão. Escolhe uma roupa sem enxugar completamente o corpo. Uma roupa para aquele dia especial e tão igual aos outros. Para à frente do armário como um animal, olhando sem intenções, um momento opaco que lhe acontece quase todos os dias (exceto se estiver com muita pressa), um pouco diluída nos cantos escuros do armário, convivendo com as roupas em compromisso carnal. Ter muitas roupas no armário, muitas bolsas, muitos sapatos é como ter uma fortuna incalculável e sentir-se a salvo de todos os riscos. Deriva sem rumo até o mundo evasivo e delicioso que ela pressente como um cego vê as coisas acontecerem. As intenções oportunistas a levam a um lugar sem lugar onde tudo começa e ao qual tudo se refere, seiva agitada como a nascente que se anuncia nas entranhas da terra. As intenções intrusas chegam como assombrações e às vezes a fazem rir sem motivo, apenas de leve excitada. Até ali estivera íntegra, indivisa, ocupada na simplicidade do banho. Diante do armário de roupas, as sombras e a indecisão criam um estado de transição, um terreno fértil para intenções aliciadoras e ela cuida de não se deixar enredar demais por alguma delas e perder a noção do dia e do que a espera lá fora. Diante do armário e sua meia-treva cheia de bandeiras ocultas, alguma emoção deve orientar o começo do dia, semidesperta e vulnerável.
A rua está mais quieta do que de costume nessa manhã, como se os habitantes da cidade houvessem tirado férias coletivas. Ao sol ainda morno, sente um pouco de sono; a noite fora inquieta e cheia de sonhos que mal terminavam davam início a outro. O suco de pêssego da esquina seria seu café da manhã. Olha as pessoas que passam, ancorada em compromissos que vão além daqueles conhecidos de todos. O sabor do pêssego a leva de volta à casa da avó, às sobremesas de domingo, e logo à lanchonete no centro da cidade, grandes painéis pintados pelas paredes, onde ela e Remo tinham parado uma vez para tomar um refrigerante antes do trabalho.
A freada violenta de um carro a interrompe. O carro gira no meio das pistas, desliza junto ao meio-fio do outro lado da rua, ziguezagueando em sua direção e para de encontro a um poste bem próximo, num choque atenuado pela própria falta de direção. Junta gente. Vê de relance os três dentro do carro, só o motorista um pouco machucado no rosto, nada sério. Caminha com pressa, como se de repente se lembrasse do horário de trabalho, do que a espera sobre a escrivaninha branca com um botão de rosa na jarra amarela, da cara de Remo olhando-a chegar fora de hora no meio do corredor, meio rindo, meio tenso, como se repetisse a frase do primeiro dia, Minha equipe não se atrasa. Quase simultaneamente as pessoas ficam distantes, uma espécie de frio sem explicação circula entre os corpos em movimento e os rostos ensombrecem. Aperta o passo para espantar aquela neblina invisível que a penetra até os ossos sem que o sol tenha deixado de brilhar. Deseja intensamente estar na sala de trabalho, ver Remo, ouvir sua voz, receber o olhar que se suaviza diante dela. Tem vontade de se benzer, a imagem um pouco vaga do Deus de sua infância ameaça surgir de trás de alguma nuvem no mais alto dos céus. Entra num ônibus e olha a rua pelo vidro traseiro, com a sensação de ter escapado. Mentalmente entra em sua sala e encontra alguém em sua mesa falando ao telefone, e isso é como descobrir que alguém se apossa do que é dela. Uma cena bem cotidiana, que lhe tira a segurança como um sapato de salto muito alto e fino numa calçada de pedras portuguesas. Um sentimento travestido do medo da morte lhe dá vontade de esquecer, mudar de assunto, mas não a deixa retomar o controle dos pensamentos. Depois olha para fora e vê as mesmas vitrines, os mesmos prédios de todos os dias em seus lugares. A partir dos sentidos o mundo afinal pode ser tranquilizador.

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O carro se nega a pegar e o cheiro do estofamento novo é nauseante. Remo abre o capô, debruça-se com cara de quem sabe, sem muita esperança de descobrir, e se afasta para não sujar a camisa de xadrez azul. Resmunga um pouco, tosse e olha em volta. As árvores não garantem nenhuma sombra. Ocorre-lhe que se chamar o mecânico vai se atrasar para a reunião das dez; melhor ir andando (são só três quarteirões) e deixar o carro para depois. A vida não é feita só de coisas agradáveis (a não ser que um motorista prestimoso providencie todo o necessário e mais um helicóptero, o que não é o caso); para conseguir as coisas agradáveis é preciso enfrentar as outras, que são quase todas, como andar debaixo de sol para não perder o horário sagrado de uma reunião. Perto demais para pegar um táxi; seria uma corrida de três minutos, se tanto, e o taxista podia ser uma pessoa intratável ou mal-humorada, daquelas com as quais só se pode lidar de cima para baixo. Taxista é sempre uma incógnita, não dá muita sorte com eles. Prefere andar e suar, mesmo que Jesse o chame de ogro por causa do que ela considera vacilos inexplicáveis. Chega suado, mas ainda a tempo de ouvir os arrazoados do Monteiro e a voz de cana rachada de Lucyna. Pensa na hipótese de comprar uma bicicleta para ir à companhia todos os dias, assim evita ficar sem exercício e deixa o carro com Jesse para as compras, as consultas ou o que tiver combinado. Pega o segundo cigarro do dia (o primeiro havia fumado depois do café da manhã) e traga longamente, soltando a fumaça com um leve engasgo. Logo se lembra de que agora é um chefe de setor e não fica bem aparecer montado numa bicicleta. Não que dê muita importância às aparências, mas reconhece que muita gente, justamente os que mais importam, vai ficar desagradavelmente surpresa e até decepcionada com ele se fizer isso, e que terá de enfrentar risinhos de falsa simpatia e comentários corrosivos.
Apressa o passo para entrar logo na sala onde Gilberto já teria ligado o ar-condicionado. Mas ouve alguém chamá-lo e para – embora ultimamente ande falando sem parar e ouvindo sem escutar, para poupar tempo ou dar vazão a eventuais irritações.

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Encontra Remo no corredor, exatamente como havia imaginado durante a viagem – rindo meio tenso. Que cara é essa? – ele pergunta. Não dormi direito, você nem pode imaginar, acredita que – o Marcondes o chama do outro lado do corredor. Deixa eu largar a bolsa. A sala está vazia. A rosa na jarra amarela está particularmente bonita, abrira toda e agora expõe o miolo que as rosas costumam esconder o quanto podem. Quem não esconde o miolo enquanto pode? Depois de chegar ao miolo, começa-se a declinar. Sem lógica (porque uma rosa, fechada ou aberta, não é uma mulher) ou poesia (certas comparações não chegam a ser metáforas nem matéria-prima com que se possa construir poesia, e cheiram a pieguice), mas segundo um arquétipo racional e poético que a deixa satisfeita consigo mesma. A ideia vinha de sua avó, sua mãe ou uma tia, todas conservadoras e levemente puritanas. Também por causa de um paralelismo entre o auge e a decadência dos seres vivos em geral. Enfim, é fácil e agradável se comparar a uma flor.
Senta-se um pouco para pensar antes da reunião das dez. Há semanas vem arquitetando um modo de lidar com aquilo (o Marcondes, a Lucyna, o Monteiro e os horários que a atropelam todos os dias sem que consiga tirar disso outro proveito que cultivar a esperança de poder um dia tomar a vida nas próprias mãos). A porta se abre para dar passagem ao Gilberto: Como é, vamos lá, estão só esperando por você. Ela ri: Esperando? Ah, eles não esperam por ninguém, eles tocam os acontecimentos com o pé. Gilberto olha para ela como se a visse pela primeira vez: Que é isso, o que foi que você disse? Por quê? – e se volta novamente para vê-la melhor. Queria saber uma coisa: o novo projeto, o Remo disse que é ciclópico, você sabe o que é isso?
Vai atrás do Gilberto apertando umas folhas de papel contra os botões do colete e toma seu lugar à mesa oval. Remo lhe envia um olhar enigmático e Lucyna pergunta por que não queimam essa etapa e passam logo ao principal. O desgosto cresce com a luminosidade violenta que a persiana não consegue esconder de todo e agride a visão. Hora de pôr algum talento em cena e duas ou três sugestões anódinas para dar andamento aos trabalhos e ratificar sua reconhecida eficiência. Marcondes as toma ao pé da letra, pondo-se a argumentar como quem espera uma deixa para poder atuar à altura e de modo que todo mundo veja. Remo franze um pouco o cenho e acende o quinto cigarro em meia hora. Tosse com estrépito e pigarreia profundamente como se quisesse limpar o baixo ventre. Lucyna faz algumas observações de ordem prática e Luba percebe com nitidez o quanto aquela voz ranheta lhe dá nos nervos ora abalados. Escreve algumas notas desordenadas e toma afinal seu lugar para expor prós que mais lhe parecem contras – enquanto em contrapartida pensa contras que profundamente lhe agradam – à medida que a luz cresce e o frio vindo do aparelho se cristaliza nos grandes paralelogramos vazado por janelas e porta.
(Lembra de um dia, os dois na sala dele, um relatório longo demais sobre a mesa. Longe daqui, fora daqui, já pensou nisso? – ele disse, e ela o olhara um pouco surpresa, um pouco intimidada. Estava ansioso, em outra dimensão que não o dia-a-dia. E então? Ela não quer responder, mas diz: Eu penso, acho que é para fugir disso tudo, o que é impossível. Ele tinha se recostado na cadeira preta de couro, larga, de braços cromados, e ela percebeu que tinha dito a palavra errada: fugir não era com ele. A brecha que havia deixado à vista um pouco do paraíso estava de novo fechada, sabe Deus até quando. Pendurado na parede à sua esquerda o pôster da ilha. O telefone tocou. Tudo voltara ao normal.)
Uma vontade de rir sem nenhuma razão aparente a faz curvar-se para frente, e imediatamente simula alongar a coluna de volta à posição normal. Normal lhe parece um conceito tão remoto no momento que a vontade de rir volta com força redobrada e tem que recorrer a uma piada vagamente referente a um dos temas da pauta, o que dá a Remo a chance de soltar uma de suas risadas triunfais, embaraçando o Marcondes de modo visível e aliviando a aflição que a atormenta.
Remo também procurava um motivo para rir, fica sabendo, na hora do café. Mas não daquele riso esquizofrênico que a acometera durante a reunião. A pressa e a eficiência dele são movidas a sarcasmo, um sarcasmo surdo que se dissolve nas falas com que deve honrar a seriedade ambiente. Eles têm razão, é claro, dizem os dois juntos, e começam a rir por isso. Rola muito dinheiro, dinheiro é coisa séria para quem resolve viver por ele, é um totem devorador, deus meu, deus nosso, nosso senhor que não admite brincadeiras. Mas é por isso que ainda não ficamos ricos; ainda tenho esperanças, ainda espero um caminho menos estúpido. É preciso ser forte para atingir o alvo, aguentar o tranco. Mas há gente que se fanatiza e fica ranzinza e ridícula. Há gente que abandona pai, mãe e filhos, mulher e marido. Há gente que atropela e mata, cospe em cima e trai o maior amigo. É o caso do Jorge Antero, por exemplo. Luba faz um pequeno gesto de alerta: Ih, não fala nesse nome, o Marcon… Remo sorri apagando o cigarro. Ah, eu sei, é amigo dele. Dele e da família. Deu o golpe do baú, pôs a mão no capital do sogro e a sogra num asilo em Jacarepaguá, a velha imagina que está jantando no Saint-Honoré e que voltou a Paris para fazer compras nos Champs-Elysées. Já vi coisas incríveis, já vi gente leal mudar de lado de repente, gente simplória virar colunável à custa da própria dignidade e do auto-respeito. Luba pensa alto: Sabe, essas histórias são mais comuns do que se pensa, porque às vezes de um pequeno capital se faz uma grande fortuna, e um pequeno capital não é tão difícil de conseguir. Mesmo que você tenha só um bom salário. Ele arregala os olhos: Como, como, com poupança e CDB? Mas é preciso ser mais econômico do que a minha mulher, por exemplo. A Jesse? A Jesse, ele confirma com ênfase. O otário aqui não ganha o bastante. Mas há aplicações, a gente dá nó em pingo dágua. Ela concorda: E isso talvez justifique os rabos-de-palha, como no caso de um antigo chefe nosso. Remo a olha com atenção: Engraçado, agora você podia falar o nome da figura e não falou. Ela sorri. Trabalhei com ele muito tempo, fui leal ao menos enquanto tratava dos interesses dele. Dói um pouco falar assim, dizendo o nome. Param de falar e trocam um olhar de entendimento, enquanto Remo estende a mão para um rápido carinho em seu braço. É, ele concorda, Dizer o nome desse jeito é um pouco como humilhar o ausente. Porque também o que interessa é o fato em si e não tanto quem o praticou. É engraçado como o fato de uma pessoa existir tão perto da gente… parece… é como se redimir um pouco. Luba olha o gesto com que ele leva o cigarro à boca, um gesto que sempre provoca nela a sensação de estar se dilatando, crescendo dentro de si mesma, de estar à beira das lágrimas. Não acho muito não. Acho que interessa muito quem faz as coisas, ela diz, desviando o olhar. Acho que a gente não vê quando não quer… ou não pode. Pra efeito de julgamento sim, mas nós não estamos julgando. Estamos só… …tricotando? – ele completa. Desabafando, aliviando, jogando o excesso no mar? Luba faz um gesto de quem vai vomitar: E haja mar. Ele sorri: Por falar em mar, estou pensando em umas férias no início do ano. O calor já anda demais, imagino como vai ser dezembro. Você não vai tirar férias? Estive preocupada ontem por causa do Cachu, diz ela, vendo que Lucyna se aproxima e também para exorcizar um excesso de complacência, vizinha muito próxima do amor. Ele está doente? – quer saber Remo, que presta atenção a miudezas no meio de qualquer tumulto ou ataque inimigo. Está muito velho. Está fraco, não come quase nada e vomitou no jardim ontem. Irgh, faz Lucyna, sentando à mesa deles, é mesmo? É por isso que não gosto de cachorro nem de bicho nenhum. “E ipso facto, minha velha, nem de gente”, pensa Remo, sorrindo daquele jeito que Luba identifica como falso. Remo tem o sorriso mais charmoso do departamento, diz Lucyna, com ar songamonga, e logo se volta para Luba, que imagina, sobressaltada, o coração aos pulos, se teria se traído. Deixa disso, menina, que perda de tempo isso de criar cachorro, pagar veterinário.
Marcondes volta do almoço enquanto ela diz “veterinário” com a entonação de quem pronuncia uma palavra obscena. A reunião vai continuar pela tarde adentro. Falta definir mais de metade da pauta. O projeto é ciclópico, afirma Remo, esmagando o cigarro com raiva.

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Luba vive tudo no momento em que acontece, e esquece em seguida, ele dirá mais tarde à analista. Ela é assim para você? – indaga ela. Às vezes me deixa confuso. Depois continuou falando do Cachu: “acho que ele não vai longe”, como se estivéssemos falando do cachorro há horas. “É pena”, eu resmunguei, mas dei as costas e parti para a sala do Monteiro, onde de fato havia uns dados a pegar para amanhã. Letícia, a analista, volta ao assunto: O que é esse cachorro, na sua opinião? – pergunta, trocando de posição na poltrona. Um cachorro como qualquer outro. Ele te irrita? Quando se intromete… – …em quê? Remo ergue meio corpo e pega o maço de cigarros no bolso da camisa. Durante o banho de hoje pensei em como seria agradável poder conversar durante pelo menos meia hora sobre o mesmo assunto sem precisar partir ao chamado do dever. Esse é um dos tormentos de quem trabalha num lugar como aquele. Eu acredito que isso daria boas charges, já pensei até em me aventurar como chargista, mas não encontrei a chave mestra do ofício. Enfim, tudo existe primeiro em pensamento, mas que pensamento é esse que não toma forma? Penso também, e muito, em cifrões, coisas parecidas com moedas que podiam ser de papel dourado, notas verdes caindo como num outono, embora as folhas do outono não sejam verdes e essas sejam notas de primavera, véspera de verão. Hum, hum, faz Letícia, você parece mais romântico do que chargista. Pensei numa decoração menos sóbria para minha sala, ele continua, uma coisa mais clara. Desisti, não dá pra estofar o sofá preto de amarelo ou azul-bebê (ele ri). Os números do pôster em frente a minha mesa são muito bonitos, podem até incentivar alguém a trabalhar, mas acho que sinto falta de sol. E de repente, ele confessa, baixando a voz, me dei conta de que estava pensando num cachorro bóxer, cor de conhaque e agonizante, babando, arquejando, e esfreguei com força os olhos porque, porra, tinha entrado um pingo de xampu num deles. Por que pensaria eu num cachorro que tinha visto uma vez em fotografia, e em nome de que entraria ele debaixo do meu chuveiro e naquele estado? Parou de falar como quem divaga, e depois disse: Com a água do banho sai muita gordura de pele. A gordura às vezes corre pelo fundo do boxe como pétalas pequenas e esbranquiçadas, acinzentadas, quase como uma espuma, pétalas de espuma, inacreditáveis, nunca pensaria nelas a não ser debaixo do chuveiro. É como despetalar. Isso parece coisa de bicha – e ri meio embaraçado. Remo se cala e Letícia suspira brevemente. Por que de bicha? Essas pétalas de espuma estão aí para tentar esconder o bóxer que te incomoda? Ele faz que não ouve e continua: Depois veio Jesse e disse: “Remo, telefone. É o Marcondes.” E o que é que esse filho-da-puta queria? Nem tomar banho em paz eu posso. Algum dia ainda chego lá. Chega aonde? – ouve Letícia dizer e levantar de sua poltrona de couro. Sai do consultório um pouco confuso, meio trôpego, como se estivesse numa crise de labirintite. Ainda há tempo de pegar um cinema, mas em vez disso volta para a companhia. Encontra Luba e o Monteiro na cantina, diante de duas xícaras fumegantes de café. Viva, diz o Monteiro, se aproxime, estamos mesmo querendo falar com você. Senta com uma expressão fugazmente feliz que ela percebe. Não entendo por que a gente toma café quente num clima desses, e depois se vira para o balcão e pede outro café.
Remo se afasta da juventude com a dupla convicção de que não voltará a ser exatamente quem era, mas nunca deixará inteiramente de pensar como antes. A disposição é a mesma, a atitude interior também, mas dificilmente alguém reconheceria nele o militante capaz de tramas e ações temerárias. Agir exatamente como antes significa pôr em jogo todas as conquistas, todos os passos da caminhada e voltar ao ponto de partida como num jogo de batatinha-frita-um-dois-três. Os vínculos nunca se quebrariam, mas seu significado mudara completamente: agora têm um sentido didático. Chegara ao ponto de poder se permitir um papel em que as táticas desmentem formalmente a teoria. Muitas das lembranças que o assaltam ou alegram vêm desse outro tempo, assim como muitas das ações de agora são ecos informais de outras que já não teria como repetir. Meses atrás um antigo colega de partido o havia chamado de vira-casaca, para diversão do Marcondes, que disse, olhando maldosamente para ele: Vira-casaca é quem já foi, e não me consta que ele tenha sido – como se não soubesse do passado conspiratório de Remo. Alguém mais arguto, pensa o próprio Remo, veria que mais justo seria julgá-lo confiável a ponto de ter mudado – quem é que não muda em vinte anos? Mas no seu caso as mudanças não passam de acomodações necessárias para continuar vivendo. Metamorfoseado de borboleta em larva, aguardando o momento propício para voar com asas mais perfeitas? Mas essas digressões passam rápido, porque logo a dura harmonia da urgência volta e engole tudo. Conhece bem demais esse estado, não se ilude: está só chegando à tona para respirar. Às vezes isso doi muito na coluna, em algum ponto do corpo, mas reclamar não faz parte das regras.
Concede-se de vez em quando um olhar para um pequeno pôster com o mapa da ilha do Caribe – outra dimensão do tempo e do espaço, um paraíso: agora parece fora de alcance, mas um dia tinha sido palpável, talvez volte lá algum outro dia, no futuro, quem sabe? Assim como tantos fins de semana de sol, feriados junto do mar, dias da serra com amigos de infância, pequenas viagens em retratos que Jesse coleciona e que ele para às vezes para olhar, quando a pressão parece excessiva, quando a esperança de um dia se livrar de tudo aquilo vai ficando esgarçada demais. (Foi assim quando sua úlcera estourou.) O pequeno pôster da ilha mostra os caminhos entre a vegetação rasteira, areia macia e morna por onde ele, Jesse e um grupo pequeno de gente muito próxima tinham passado. Não consegue evitar que um recanto de sua vontade se dirija para lá enquanto se debruça sobre maços de papel e arquivos enfileirados.
Eu sonho muitas vezes. Jesse diz que sou sonâmbulo. Devo ser mesmo, ela não ia inventar isso. Luba e ele tinham ficado até mais tarde concluindo uma planilha e aproveitam para relaxar um pouco no bar da cantina, que fecha às dez. Uma vez, ele acrescenta, explodindo num de seus sorrisos de indiano, mijei pela janela na casa do vizinho. Você fez isso? Não, eu não, foi o outro. Mas eu também não gostava do vizinho, um sujeito chato e implicante que jogava piadinhas para Jesse. Sonâmbulo tem um alter ego. Um ego adormecido? – ela quer saber, divertida. Um ego que sonha, ele explica. Não é o ego que sonha, segundo os analistas ele é personagem secundário no processo. É você mesmo quem faz essas coisas absurdas, é o você que não bota a cara de fora porque a censura não deixa. Ele balança a cabeça: É um outro cara que faz essas coisas, principalmente as assim, inconvenientes. Mas também sei ser inconveniente acordado. Sabe mesmo, ela concorda. Eles se olham e riem. Então ele aperta de leve a mão de Luba. Vem jantar comigo. Dentro do peito dela cai um torrão, um pedaço de coração; ela sorri e pergunta: Com a Jesse? Ela foi visitar a mãe dela, só volta amanhã.

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Marcondes tinha rido dele, quando voltou das férias no Caribe, as primeiras em doze anos. Remo percebe que ele e Lucyna o tratam como se fosse um louco manso, mas isso não o abala; também considera o Marcondes um maluco mais ou menos inofensivo e nada do que ele diga lhe parece digno de atenção, salvo um ou outro parecer puramente técnico. Com Lucyna não precisa se preocupar muito; ela entorta um pouco a boca, numa expressão conciliadora de cumplicidade que Remo sempre soube o que esconde. Marcondes é um pouco excessivo e o fato de ser seu marido o torna familiar demais para que ela possa julgá-lo com isenção. Mas a opinião de Remo merece ouvidos atentos, e a tal ilha deve ser mesmo uma delícia. Só que falar disso no espaço de trabalho é um sintoma das pequenas ingenuidades que afetam aquele homenzinho útil, dinâmico e charmoso a quem sempre vale a pena perdoar. Ele voltará ao normal em pouco tempo; por isso ela lhe dá um pouco de corda. Só receia que contamine o pessoal dos escritórios. Mas Lucyna não conhece todas as utopias de que ele é capaz.
Ninguém naquela comunidade é solidário com quem quer que seja; mas o que interessa ao chefe interessa automaticamente a todos. O processo é como cair nas garras do perseguidor e fingir que está gostando – e até aprender a gostar – para tirar a maior vantagem possível. Fala-se levianamente às vezes em largar tudo, mudar de vida, mas são conversas de corredor ou cantina, palavras à meia-voz que o vento ou o ruído das matriciais leva consigo, para o bem de quem as pronuncia. Remo empresta os ouvidos a essas palavras com bonomia e muda solidariedade; é um bom colega, um bom chefe de sua equipe, um cara amigo, confiável. E acima de tudo reconhece esses desabafos em nome do tempo em que era considerado um inimigo infiltrado, um aspirante a alguma coisa que demorou muito a se definir e que ainda não está inteiramente clara para os membros da inteligentsia local. Que talvez nunca se defina. Teve sempre grandes dificuldades com os subterfúgios. Prefere calar o que não deve ser dito em determinado momento. Mas prefere falar abertamente, ainda que seja preciso aprender argumentos e palavras aceitáveis pelo establishment como quem aprende uma língua estrangeira. Sabe esperar, embora às vezes se sinta como quem já esperou por toda a eternidade.
Enquanto isso se contenta com a hora do banho, a imaginação e as lembranças agradáveis, a análise duas vezes por semana e almoços regados a muito chope com os amigos mais chegados. O dinheiro para ele não representa o mesmo que para o Marcondes e Lucyna, embora seja também um meio para chegar a um fim – mas não o que eles consideram o melhor.

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Luba julgou durante muito tempo que ele mudara; pensou que aderira ao jogo do inimigo e às ideias que antes lhe faziam ferver o sangue. Mas Luba às vezes confunde as coisas. Acredita que se pode deixar de ser quem se é por causa de um novo amigo ou de uma nova ideia. Ser quem se é vem antes de todas as ideias, de todas as mudanças. O girino que escapa dos predadores se torna um sapo coaxante, aconteça o que acontecer. Ela sabe a importância de amadurecer, mas é difícil para ela admitir que alguém identificado com a luta pela liberdade e pela igualdade entre os homens possa se tornar tão flexível diante dos interesses do poder e do dinheiro. Acredita que alguém foi o responsável direto ou parcial pelo processo, porque jamais culparia o próprio Remo, em especial depois daquele jantar. A natureza humana precisa de álibis e bodes expiatórios para não ameaçar de corrosão os sentimentos deleitáveis. No caso de Remo, a culpa com certeza recai sobre o Marcondes, com sua ambição ridícula, Lucyna com seu apego absurdo ao dinheiro e seu egocentrismo doentio, além do sistema como um todo – um culpado bastante vago que ao menos não a acusaria de calúnia ou danos morais, caso tenha que mencioná-lo diante de terceiros. Os pais de Remo, até onde ela sabe, são pessoas corretas e amorosas. A família não teria falhado, não pode ser culpada por ele agora se mostrar menos verdadeiro, menos genuíno do que já tinha sido. Olha-o com apreensão depois que aceitou tornar-se chefe de departamento, menos por suspeitar dele do que pelo medo de se decepcionar. Sofreria muito, já sofre por antecipação só de imaginar Remo explorando alguém, a ela mesma, por exemplo – meu Deus! –, indiferente aos sentimentos que persistem entre eles. Ele se tornara suspeito para ela no momento em que se empenhara em fazê-la acreditar na competência de Marcondes – que ela via quase intuitivamente desde o início como um corruptor de instituições – e na qualidade profissional de Lucyna, uma mulher comprovadamente gananciosa e sem moral. Mas não o julga, antes se enternece ainda mais.
Teme também o ateísmo descarado e reiterado que Remo ostenta, porque o Deus de sua infância é como uma antiga boneca de muito valor, que para ela resume todas as maravilhas do mundo e da vida num conjunto pouco claro de sentimentos mal definidos e bem guardados. Deus justifica tudo em que a tinham feito acreditar na infância, embora não tenha mais nada a ver com as pessoas que lhe ensinaram coisas sobre Ele. Ainda sente temor, porque o Deus – mesmo quando embalado como uma antiga boneca muito amada – é por vezes vingativo e potencialmente destruidor. Teme por Remo, por Jesse, também ateia e atrevida, porque Jesse é uma pessoa importante para ele. Em alguns momentos segura um profundo desconforto por trás do riso com que recebe suas piadas ímpias, acreditando que se não as levar a sério perdem a malignidade. Ele ignora mais do que desafia sua fé. A irreverência, ela acha, pode ser perdoada com facilidade, porque não afeta em nada a Pessoa por trás do nome; mas o escárnio é um pouco demais. E se Remo fala assim diante dela, há duas coisas a pensar: que ele fala para chocá-la, para experimentar seus sentimentos a esse respeito, ou então que fala apenas para provar que confia cegamente na amizade amorosa dos dois. Mas seria Deus assim tão exigente e mesquinho a ponto de querer que ela quebre a harmonia deliciosa dos momentos com ele? E depois, ouvir calada não é endossar, embora ouvir rindo – mas se tudo de repente se torna complicado, só é preciso crer, confiar, amar e querer bem.
É isso que diz seu olhar quando Luba o encontra na manhã seguinte. E diz mais. Gosta muito daquele jeito de Remo. Ele chega devagar, sem nenhum ruído, e fica ao lado dela. Às vezes mexe em um papel sobre sua mesa ou lança um olhar rápido ao monitor, ao trabalho que ela prepara – um texto, uma planilha ou simplesmente um jogo, depois do almoço. Espera até que ela se volte para ele e sorri, olhando-a bem nos olhos, para depois sair da sala sem ruído algum. O silêncio é tão pleno que ela tem que fechar os olhos para curtir, e fala de uma cumplicidade alheia ao serviço e aos interesses da tal comunidade pragmática. Fala de uma terceira saída que não é nem a do dia-a-dia doméstico nem a da companhia, mas uma outra que se desenha no desejo de escapar, na esperança de um dia poder caminhar com as próprias pernas e construir alguma coisa nova. Não o desejo vago de corredor e cantina, mas um desejo calado, respirado, fumado, mastigado, bebido, discutido, assimilado e curtido continuamente. Às vezes seu olhar fala também de uma alegria de viver que nem o massacre, a raiva, o excesso de trabalho nem a ampulheta que escorre sobre sua mesa – para lembrar que os dias da vida estavam indo sem volta – podem extinguir. (Lucyna lhe dera a ampulheta de presente num aniversário, como se fosse uma brincadeira: Agora você está ficando um rapazinho crescido, entrou nos enta. Pode parar de brincar de herói da plebe. Luba viu o gesto dela e o de Remo, um franzido de testa que nele queria dizer muita impaciência contida.)
Mas logo falariam sobre isso, e Luba percebe que ele sabe bem onde está a mentira. Os conselhos de Lucyna, a ampulheta e a festinha de surpresa querem apenas dizer: “Trabalhe para nós full time e não se arrependerá. Esqueça suas velhas manias, ponha seu talento desperdiçado a nosso serviço, não gaste seu tempo com as baboseiras em que você teima em acreditar.” Ele conhece a ilusão fundamental de que são construídas as ambições alheias e a própria, uma ligada às outras por um umbigo perverso. As ambições não nascem uma da outra. A ambição do chefe ou patrão – que orienta, utiliza ou logra as ambições de seus subordinados como instrumentos convenientes – não é acolhedora, digna de respeito e muito menos de afeto, mas uma espécie de anfitriã vampira que hospeda as ambições alheias a sua sombra para sugar sua força e prosperar. Conseguido esse resultado, o chefe quer se livrar de seus instrumentos tão logo eles tenham cumprido seu papel, e tudo o que se disser em contrário, Luba acredita com firmeza, não passa de mera hipocrisia social. Não seria politicamente correto esmagar um subordinado como se fosse um carrapato depois de tê-lo sugado, mas o carrapato é a metáfora perfeita para a relação que há entre um chefe como o Marcondes e o bando que lhe fornece sangue em troca de moedas. A qualidade de um chefe, segundo ele, se mede pelo talento com que consegue convencer seus subalternos de que vestir a camisa da empresa só lhes traz vantagens (no caso a dele, porque tudo é feito em benefício próprio, a empresa é só um álibi).
Ou então – única alternativa, e uma circunstância pouco viável, segundo acreditam pessoas como Luba – seria preciso querer bem aos subordinados em um outro plano, no qual algum viés das ambições de uns e outros coincida, onde alguma cumplicidade leal seja possível e algum tipo de amor que não – ou não apenas – o carnal se estabeleça como um encontro entre as pessoas. Remo e seu grupelho parecem se amar de verdade, ela pensa, com certo orgulho.

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Quantas horas seria preciso deixar correr até chegar a hora de dormir de novo evidentemente não passava pela cabeça de Cachu. Mesmo porque podia dormir a qualquer hora, em qualquer lugar de sombra, contanto que nenhuma abelha ou mosca inconveniente o perturbasse. Os olhos ficavam molhados durante o dia, ardiam e coçavam um pouco, mas tudo que podia fazer era sacudir a cabeça de orelhas pendentes, espalhando gotas de saliva e perdendo o equilíbrio às vezes a ponto de as pernas dianteiras ficarem num ângulo de mais de noventa graus, posição difícil de corrigir e impossível de manter com um mínimo de dignidade. Depois disso costumava esquecer do sono e caminhar um pouco, explorar seu terreno já tão conhecido e verificar onde as formigas se concentravam naquele momento. Parava diante delas e latia, primeiro bem baixo, depois num crescendo para logo se cansar e recuar alguns passos, balançando de leve a cabeça como para reprovar aqueles seres sem asas nem siso, sobretudo se estivessem no rumo de sua tigela. Nesses movimentos se parecia com um desses cavalos bailarinos de Andaluzia, que o treinador faz dar alguns passos e depois estacar com uma pata suspensa, balançando de leve o corpo.
Nesse dia em particular cumpriu todas as suas, por assim dizer, tarefas extremamente enfastiado. Cheio de tédio, um tédio novo que nunca havia sentido e que o nauseava, deitou em frente às formigas e pousou o focinho entre as patas, só os olhos se movimentando, acompanhando a marcha da estreita fila escura e incerta pelas lajes do caminho. Algumas imagens incompletas lhe passaram pelos olhos ou pela memória de cachorro, não se poderia precisar, e os sons ficaram mais distantes que de costume. Mesmo sem deixar de olhar as formigas, semicerrou os olhos e piscou diversas vezes, sentindo-se desconfortável. Uma náusea mais forte o fez erguer-se e cambalear, mas passou em seguida, e ele desabou de novo sobre as patas. Já não queria ver as formigas nem lhe interessava nada que se passasse fora de seu corpo, onde tudo parecia de repente em desacordo com o mundo. Esteve assim algum tempo – horas ou minutos – e depois pareceu cair num sono pesado, respirando curto.

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Junto à janela uma estante alinha livros e pastas em ordem, fáceis de encontrar e pegar. Na parede ao lado, um pôster de números claros contra um fundo verde-escuro faz um efeito repousante que ele gosta de comprovar de vez em quando, nos intervalos em que brevemente devaneia. Mas no que diz respeito à companhia lida com a realidade imediata, e por isso serve tão lindamente aos interesses de todo mundo. Sente isso na carne com bastante dureza, mas também com uma espécie de prazer que compensa mais que o salário, acima da média e sempre aquém de seus méritos. O dinheiro é o lado funcional, burocrático, legal e inevitável da coisa. O dinheiro é o combustível, argumento por excelência e remissão para as fomes do estômago ou da cobiça. O dinheiro levanta e pacifica rebeliões e responde a quase todas as reivindicações. O dinheiro devora nossas vidas, lembra ele de manhã debaixo do chuveiro, e pode ser a expressão corrente da morte, porque acontece de a morte só se alimentar da vida.
Alegra-se pelo contato de pessoas que considera suas, ainda que a hierarquia perturbe esse prazer, muitas vezes tocado de frustração. Não é o moto-contínuo que o instiga, é sua própria vontade, o último porão, o bunker onde tantas vezes se encerrara naquela sala para resistir fosse ao que fosse, mantendo contato com o que realmente interessa – parte do segredo que não se menciona senão diante das pessoas certas. Ele aguenta o tranco, como costuma dizer nas conversas de bar com o Monteiro e Luba, mas precisa dessa última defesa. Precisa mantê-la secreta e ao mesmo tempo partilhada com uns poucos seres amados para que permaneça viva. A seu modo pode ser monstruosamente egoísta: quanto mais ama alguém, mais exige essa cumplicidade, altruísta demais para fazer alguém feliz.
Luba pensa melancolicamente em Cachu, e no momento crucial de meditação sobre a morte e em como se sentiria diante de seu corpo desobrigado do encargo da vida – assim o Aurélio poeticamente define o defunto – Remo entra na sala empunhando umas folhas de papel meio amassadas. Merda! – ele rosna com os olhos em brasa. Grande merda! O quê? – ela pergunta sobressaltada, porque ele não é homem de se enfurecer por pouca coisa nem por ameaças futuras. Lê as folhas que ele lhe estende, lendo junto com ela, e quando seus olhares se encontram começam a rir como se tivessem lido uma boa piada. Riem porque há um traço de ridículo explícito expondo quem redigira aquilo, certamente um vaidoso infantil, mas também porque preveem, sem ter ainda discutido o assunto, que a coisa toda pode render muito mais do que seria de desejar. Estão muito juntos nesse momento, não só fisicamente. Essas coisas me deixam muito irritado. Essas coisas me deixam puto da vida. O silêncio que se segue é como um cristal embaçado. Monteiro já viu isso? – ela pergunta com algum esforço. Não está aí, foi à reunião do conselho e só volta amanhã de manhã. Então quem poderia… – Luba ia dizendo, mas Remo não se contém: Como alguém pode ser tão imbecil? Ela balança a cabeça, incrédula: Mas por que se incomoda conosco? É justo o que me deixa preocupado. Parece missa encomendada e sinto cheiro de dedo-duro nessa história. Mas quem? Digamos a Cíntia, ela sugere. Olha-o com angústia. Mas o problema é dele, afinal quem tinha fodido com a Cíntia não fora ela. Ela é assim, vingativa? Ele pensa um pouco, antes de responder: Potencialmente, todos nós… Ponha-se no lugar dela. Luba sacode a cabeça: Deus me livre da ira da Jesse – mas a brincadeira morre sem ser ouvida, a cabeça de Remo tumultuada por pensamentos tempestuosos. Você sabe o que isso pode querer dizer? – pergunta de repente, olhando-a com uma intensidade desusada. Ela abaixa a cabeça como se devesse sentir vergonha de alguma coisa que não fez. Ele se deixa cair numa cadeira. Remo, não fica assim, não há motivo, você vai ver. Serve-lhe um café e senta ao lado dele em silêncio, disponível – ao menos isso, como sempre. Ah, por que é preciso aturar isso? – ele pergunta baixinho, depois de algum tempo. Por quê? Mas foi você mesmo quem me ensinou, se não fosse isso eu já teria ido embora daqui. Remo olha para ela: Tem razão. Tudo começou aqui, foi plantado aqui, e é aqui que tem que ser colhido. A carícia no rosto dele tem um efeito devastador na resistência dos dois, e Remo a toma pela mão. Vamos tomar um chope, diz ele, quase inaudível.

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O Monteiro tinha chegado de ressaca, mais pálido e mais calado que de costume; arruma as pastas sobre a mesa e olha a correspondência sem ânimo, quando ela entra em sua sala. Vai conversar com o Remo, pede. Ele está precisando. O Monteiro não tira os olhos dos envelopes nem para de arrumar papéis dentro das cartolinas amarelas. Você ouviu o que eu disse? Ouvi, ele resmunga. Já vou. É sério. Silêncio total. Ela vira as costas para sair. O que foi? Expediente do diretor-geral sobre graves acontecimentos no setor que ele chefia. O nosso? Monteiro passa por ela e sai em direção à sala de Remo. Luba volta a sua sala pensativa. Não viu Remo nessa manhã e evita procurá-lo; gostaria que ele conseguisse alguma solução sem que fosse preciso arriscar uma recaída como a da véspera. Tem medo do que pode acontecer, caso alguém os veja juntos. Medo de inaugurar mais uma crise na vida doméstica de Remo, que já passou por várias. Ele sabe procurar caminhos. Saberia falar com as pessoas certas na hora devida, usar as melhores palavras. Acima de tudo, pressente que a decisão dele virá na hora em que ela estiver se julgando imprescindível e a deixará para trás, sentada com suas boas intenções. Não há nada mais melancólico que um silêncio solidário desprezado, um olhar de ternura ignorado, uma palavra de afeto que se perde. Mas o Monteiro passa de volta pelo corredor e para na porta. Ele ainda não chegou, diz, e sai em direção a sua própria sala.
Não tinha chegado. Então alguma coisa devia ter acontecido. Está doente, tomou remédio para dormir. Volta-se para o telefone e começa a discar; depois para e põe o dedo sobre o gancho. Que é que eu vou dizer à Jesse? Que ele está com problemas? E se ela não souber? Torna a levantar o dedo e disca de novo. Ocupado. Recosta-se na cadeira com uma espécie de alívio provisório e suspira. Começa a separar os assuntos do dia e vai abrir o correio eletrônico quando o telefone toca. Tem um sobressalto e demora um pouco a atender. Tem medo do que vai ouvir; o toque é de ligação externa. Pode ser – mas levanta o fone. Alô, sim, sim. Ah, ele não está aqui, pode deixar o recado? A secretária dele também não está no momento – um recado para o Monteiro, nada a temer por esse lado. Logo a seguir, porém, nova chamada. Dessa vez é Jesse. Sim, respondeu com a respiração meio presa, não vem agora, está a caminho de São Paulo? Pediu para você me dizer? Fica na dúvida sobre perguntar mais. Era uma viagem prevista? Ah, sim, estava marcada há duas semanas, ele quase esqueceu, mas saiu a tempo. Talvez logo mais esteja aí na companhia. Ele está bem? – Luba pergunta e logo se arrepende. Sim, por quê? Então Jesse não sabe de nada. Melhor assim, alegra-se, e logo cai em si – o que é que isso prova? Nada, só para saber, estava muito cansado ontem.
Larga o telefone. Alguma coisa está errada naquilo tudo – Cíntia, suspeitas, ataques do inimigo, súbita viagem de que ninguém tinha falado. Luba tem fama de alarmista, um pouco paranóica, vai ver está outra vez exagerando. Não teria dito nada a Jesse por motivos óbvios; Jesse é uma mulher frágil, não aguenta um golpe de repente – será isso? Fica em casa, preocupada com suas almofadas e suas compras compulsivas. No entanto ainda não há nenhum golpe. Ou há? Devia ter perguntado para onde ele fora, podia estar no mínimo em doze lugares diferentes. Mordisca a ponta do indicador direito, sinal de evidente inquietação, mas continua trabalhando. Pode pelo menos – pensa tão obscuramente que tarda a se aperceber do que está pensando – pode pelo menos me ligar. Continua falando sozinha, enquanto coisas desproporcionais lhe escapam e a afligem. Mas por que afligir-se se Remo parece prestes a solucionar seus problemas? Com toda certeza teria como sair de qualquer enrascada, fazer cessar qualquer inconveniência, abrigar-se de qualquer catástrofe. Mas se ao menos – deve continuar pensando ou será melhor ir ao encontro dele? Está acossada por impulsos que lhe parecem fora de propósito para os outros, embora não para ela. É justo o que está errado com ela: não segue os próprios impulsos em consideração aos juízos alheios. Hesita, porque nem ao menos tem certeza da extensão do problema. Remo se sente ameaçado com o expediente do diretor, uma reação subjetiva, com certeza motivada pelo temor de que isso lhe custe o emprego e a execração pública e doméstica. Chega afinal à conclusão de que está se afligindo muito mais por si mesma do que por ele. Entende de repente que a exigência descabida de fidelidade que Remo lhe impõe é como uma droga, um vício sem o qual não consegue viver. Praticam uma forma de sadomasoquismo funcional muito sutil, subliminar mesmo, mas atuante e poderosa: ele a suga, faz dela secretária, dama de companhia, assistente, braço-direito, confidente, amiga particular, namorada e substituta eventual; tudo isso sem uma palavra, sem um gesto autoritário e embora nada disso esteja em seu contrato de trabalho. Ela se submete a tudo, se oferece, encarna o papel como uma obrigação, só que não é por obrigação e muito menos por interesse: é por prazer, caramba, o único prazer genuíno em sua vida atualmente.
Marcondes em pessoa chega à porta de sua sala e lhe pede que substitua Remo na reunião que começa dentro de cinco minutos. Não fala sobre a ausência dele, portanto já deve estar avisado. Teria partido do próprio Remo o pedido? A droga faz seu efeito: ela fecha os olhos um instante para saborear o inefável daquilo. Depois se levanta e junta algumas folhas numa pasta. Passa à sala de Remo e junta outras folhas às primeiras. Está pronta para o que der e vier. Mas participar de uma reunião dessas sem ele tem um lado frio e triste, pensa, de volta a sua sala. É preciso um aquecimento. Como ele responderia ao que vão lhe perguntar? O que teria que dizer para conseguir os resultados que interessam a ele? Pena que muitos dos interesses dele passem primeiro pelos de outras pessoas. Pena que não possa contar com alguma orientação mais precisa. Como em resposta, o telefone toca, é ele. Não, não estou em São Paulo. Estou em outro lugar. Depois te conto tudo, fica tranquila. Não precisa dizer isso a ninguém, nem à Jesse. Está tudo bem. Mas anota aí o que fazer na reunião do Marcondes.

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Nada havia mudado, mas tudo estava diferente. Via sempre a mesma nesga de chão e umas formigas que mais pareciam tropeçar do que andar pelas pedras entre nuvens esbranquiçadas que passavam por seus olhos e sumiam para voltar depois mais e mais brancas, mais e mais como se não fosse voltar a ver nada. Era quase noite? Não sabia nada, não ouvia quase nada, ninguém falava, onde estariam todos? Ao menos a náusea melhorou – melhorou? Não, que nada, voltou, voltou forte que foi preciso vomitar um pouco, que dor no corpo, que dor nas costelas, a barriga vazia e nauseada, nem água nem nada e o chão cada vez mais quente; mas onde estariam todos? Abriu os olhos porque tudo rodava e oscilava à sua volta, e escureceu e esfriou de repente, como se o calor do chão tão quente lhe gelasse a pele enquanto alguma coisa inusitada apertava com força seu plexo.

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Chega ao jardim e procura por Cachu durante alguns minutos, sem resposta. Não demora a encontrá-lo, estirado, deitado de lado e com os olhos parados, meio abertos entre uma poça de baba ainda espumante e dois montinhos de cocô marrom claro, pastoso, provavelmente ainda quente. Com um súbito engulho sente os olhos se encherem de lágrimas. Abaixa-se, passa a mão de leve na cabeça do animal e fecha seus olhos. Ele ainda está ali mas não está mais; não faz sentido fechar seus olhos porque supostamente não vê mais nada e não há do que poupá-lo, mas também pela mesma razão não faz sentido deixá-los abertos. Fechar os olhos de um morto é como proteger a intimidade de seu novo estado. Mas é verdade que fechar os olhos do morto só faz sentido para os vivos. Tem o pressentimento de estar quase entendendo de que modo a morte consiste na suspensão de todos os sentidos da mente e do corpo, mas tem vergonha de acreditar que tal pensamento possa significar alguma coisa real. A morte é uma obviedade, parece que isso é o máximo que se pode extrair dela. É preciso ser muito dado a profundezas metafísicas para querer ir mais longe. Ante um indício tão leve logo recai no equilíbrio de não entender. Não é de crer que alguém possa estar prestes a decifrar esse mistério só por estar diante do cadáver de um cachorro. Nem de qualquer outro.
As lágrimas caem e pingam o chão em volta do focinho ainda molhado. Hirto, parece um bicho empalhado, sem aquela graça desajeitada de olhar pedindo carinho e babando pelos lados. Não tem mais nada a ver com ele nem com ela, é isso que doi tão fundo: absoluta e simples é a morte. Um fantasma, porque não existe mais a não ser na memória muito viva, fresca como a baba e o excremento; a não ser na matéria inerte e prestes a desaparecer e entrar em um processo de transformação que ela não verá, do qual apenas tem notícia por antecipação lógica com base em informações anteriores, e do qual só se lembrará se alguém lhe falar disso. O sofrimento se mescla com o alívio de não ter visto Cachu sofrer; mas cresce por causa da imobilidade, uma coisa ameaçadora que a fere diretamente. A morte sem a tortura da agonia fica mais bonita e seu mistério mais tocante, talvez porque a luz da vida ainda se reflita no morto. Murmura algumas palavras doces muito baixo, como se o embalasse e se consolasse a si mesma. Tem o impulso e uma equivalente repulsa de pegá-lo ao colo e acarinhá-lo. Levanta então e corre para o telefone, passando às providências práticas. Depois traz um grande saco de plástico bem forte do armário da despensa, com cuidado puxa-o para longe da sujeira e estica o saco a sua frente com a abertura em direção a sua cabeça. É difícil mas afinal consegue colocar o cachorro dentro do saco e fechar bem a boca com fita gomada, várias voltas. Viriam buscá-lo às quatro horas, e Luba se comove pensando que ele seria velado pelo mesmo sol que deve tê-lo atormentado nos últimos dias.
De repente pensa em Remo. Como se ele tivesse algo a ver com a morte de Cachu. Torna a entrar, sentindo o estômago doer, vazio e nauseado. Debaixo do chuveiro, lembra das planilhas a imprimir logo cedo, das transparências que não haviam chegado para a palestra da tarde e dos textos do seminário que é preciso encaminhar ao editorador. Parece-lhe cruel pensar nessas coisas, que valem menos que a vida de um cachorro. Torna a lembrar de Remo. Joga a roupa de dormir dentro do cesto e corre a se vestir sem tempo de esperar as intenções do dia. Ou nem haveria intenções naquele dia cheio da imagem do cachorro morto, de seus olhos vazios – o que afinal teria fugido dele? o que é que foge com a morte? que entidade é essa que nos habita, graça de robô articulado, um simples cachorro sem voz além do latido breve e meio rouco, brilho no olhar já meio velado de catarata, ainda um resto de lustre no pelo misturado de fios brancos? que fluido polivalente é esse, que faz do cachorro cachorro, de Remo um homem e de mim uma mulher? será o mesmo? será mais ou menos forte, denso, leve, de empuxo menos intenso nele por ser cachorro e mais etéreo em nós, que podemos falar e pensar nisso? Afinal estão lá todos os traços, os contornos da vida, mas a corda tinha acabado; os olhos e os órgãos todos, orelhas que não ouvem, olhos que não enxergam, pele que não sente o toque, pulmões que não se enchem mais. Bem depressa iriam todos se desmanchando numa transformação tão fatal que não falha, a não ser nas mitologias. A vontade de quebrar essa lei faz as mitologias.
Mas não tinha sido para isso que se apegara tanto a Cachu, numa amizade mansa e calorosa. Guardaria só boas lembranças dele, deitado a seus pés diante da televisão, brincando no jardim de manhã, antes que ela saísse para a companhia ou se dispondo a fazer e pedir companhia nas noites de solidão, depois que o marido tinha ido, logo depois, quando teria sido muito mais difícil sem ele.

***
A tarde desce clara e quente, deve estar fazendo mais de trinta e nove lá fora. Na face norte do Pão de Açúcar o desenho gofrado na pedra de uma íbis, de pescoço esticado e asas meio abertas, dá a ideia de uma ave mais dura que a encosta, que desastradamente se chocou contra o paredão em pleno voo, como acontece com os pequenos vilões de eterno azar dos desenhos animados.
Remo sua um pouco, apesar do ar-condicionado. Olha o desenho da íbis, mas não o vê – está longe, desconfortável, carregando uma angústia espessa e pesada que há três dias o atormenta, primeiro em forma de uma raiva espumante, depois como uma atividade febril e frenética, que o pusera em contato com várias pessoas menos ou mais conhecidas, falando como nunca. A tarde quente em frente ao Pão de Açúcar é uma sufocação de calor e ansiedade que ele tenta superar. Começa a andar pela sala e acaba transbordando para o corredor, fumando, tossindo e fungando, atento ao telefone que pode chamar a qualquer momento.
O expediente está terminado, mas só para os inocentes. Marcondes está em Brasília negociando com o ministro; Lucyna continua em sua sala ridiculamente suntuosa, cercada de tapetes persas e luminárias de bronze e cristal. Tem ímpetos de entrar sala adentro, como em tempos normais fez tantas vezes, para resolver problemas perfunctórios. Agora no entanto não quer dar a perceber a pressa e a aflição que o consomem. Lucyna deve ter recebido alguma comunicação do marido, ou quem sabe até diretamente da direção-geral, e deve ter o que lhe dizer. Mas não se abalara; está absorvida em suas contas, no andamento dos projetos que garantem bons negócios ao casal. Não seria boa política forçá-la a falar agora. Remo resolve sair, volta à sala, guarda algumas folhas na pasta e fecha a porta à chave. Não pode tomar qualquer atitude além das que já havia tomado. Não lhe compete agora qualquer movimento, nenhuma providência, recurso algum. Não lhe sobra mais espaço. Prefere fugir da raia e esperar lá fora, onde ao menos há oxigênio, luz, mulheres desfilando a céu aberto e chope gelado. Pega o telefone da portaria e liga para Jesse. Ela chegaria depressa, está sempre pronta a atender nessas horas.

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Luba não vai direto para casa como usualmente. Passa numa loja de decoração, entra num shopping novo na esquina do quarteirão vizinho, olha todas as vitrines à vista e para numa cantina de aspecto alegre e luminoso. Senta e pede uma minipizza de cogumelos e um chope. Pensa que devia ter chamado alguém, uma colega, um amigo ou amiga para conversar, distrair-se um pouco no fim daquele dia suado e massacrante. Ouve um piano que lembra Bill Evans. Acomoda-se na cadeira como quem não pretende sair dali tão cedo. Pede outro chope. As pessoas chegam e sentam com a cara alegre ou inexpressiva que se costuma ter num lugar desses. Casais, amigos ou amigas, senhoras e famílias. Ninguém chega sozinho e ela se sente um pouco desconsolada. Comer, todo mundo sabe, é melhor quando se está acompanhado, sem falar na velha afinidade entre as várias formas de comer. A fome é um motivo que em geral se junta ao desejo de estar em boa companhia (ou mera companhia, ainda que não seja tão boa assim), de conversar sobre alguma coisa ou sobre tudo e nada, ouvir ou passar uma cantada, olhar alguém nos olhos ou simplesmente estar diante da cara de um semelhante. Assuntos não lhe faltam, mas não sabe se interessariam a alguém além dela mesma, de Remo e Monteiro – e de repente a vida lhe parece cruel, vazia, desperdiçada; montes de horas, dias, meses e anos naquela roda fechada que nunca se abre, naquele mausoléu de vidro e aço, aquele pedaço gelado de andar perdido e invisível aos olhos das pessoas comuns. E quem seriam as pessoas comuns? Com certeza diferentes deles, vagos fantasmas em torno de coisas tão voláteis e abstratas como o resultado de uma pesquisa baseada em estatísticas cuja origem já se perdeu na confusão dos números, nos caminhos truncados de tendências pouco nítidas, de interesses escusos, pontos de partida sem lugar em nenhum mapa e personagens sem cara nem nome.
Olha o casal da direita. São jovens, bronzeados, devem estar começando um namoro ou ficando, como eles gostam de dizer – um encontro de ocasião, um tempo passageiro para curtir. Dão-se as mãos, sorriem juntos, riem, comem suas pizzas com uma alegria contida mas irradiante. É outro mundo, outro departamento, outra gente. As outras pessoas na companhia também têm uma vida lá fora. O próprio Remo tem Jesse, uma casa que os dois cuidam, lembranças de umas férias que haviam passado juntos no Caribe. O Monteiro tem filhos e sobrinhos. Tinha sonhado com Remo naquela noite, um sonho aflito em que tesão e medo se misturavam, como se fossem se encontrar às escondidas, subindo por uma escada caracol no escuro sem conseguir achar o caminho. Quando encontrou o corpo de Cachu, pela manhã, lembrou do sonho por causa da aflição. Mas havia mais alguma coisa. Havia um sentimento que não tinha ficado claro, uma agonia de que não queria abrir mão, uma ansiedade que era como uma paixão.
Um casal bem idoso entra e fica hesitando entre uma mesa do fundo e outra num cantinho apertado. Lá dentro é quente, ele diz. Mas aqui é tão pequeno, ela refuta, e os dois continuam de pé, olhando em várias direções. Um dos garçons se aproxima e fala com eles. Pouco depois duas mocinhas se levantam e o casal se encaminha para a mesa vazia na fila da direita. Não consegue ouvir mais o que dizem, mas parecem pacificados e serenos, sorrindo um para o outro de vez em quando.
Também tinha sido feliz e tinha feito alguém feliz. A chegada de Rômulo, o reencontro manso, o beijo antes do jantar, as mãos dadas vendo TV ou ouvindo um bom disco como quem aproveita a vida sabendo que vai morrer. De vez em quando se encontravam depois do trabalho num cinema, teatro ou restaurante de boa comida e tinham se amado muito, tinham se entendido na cama como se voassem juntos, asas grossas, uníssonas, vibrando, planando depois por um céu que se perdia no sono. Talvez não seja tarde, afinal, e talvez – mas perde o rumo do pensamento, que se dispersa nas imagens que seus olhos acompanhavam.

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Jesse não entende por que aquela maldita Lucyna tem que lhe roubar o sossego do marido sem nem ao menos competir com ela. Não seria possível trabalhar muito, ganhar bem, sem ter que perder também a paz? Nunca estaria satisfeita, a mão-de-vaca? Por que não o deixa preservar ao menos os momentos de lazer, as horas em casa, o sono – o sono de Remo é uma colcha de retalhos se rasgando, uma sucessão de sonhos agitados, estados sonambúlicos, despertares alagados, estremeções e cigarros acesos a desoras. E entre os motivos sempre surge o nome de Lucyna. Lucyna, a todo-poderosa, não passa da mulher do chefe. Mas é ela a mais ambiciosa, a que suga o sangue dos funcionários com mais força e insufla o marido a explorar os subordinados, faz qualquer coisa, dizem até que coisas inconfessáveis. Em alguns momentos a ira de Jesse e sua sede de vingança lhe rende lampejos de inveja dessa mulher torpe e resplendente, que aponta como uma estrela nas colunas sociais, sempre impecável, bela, vestida como uma deusa urbana. Mas a visão de Jesse é a de quem está longe, ouve os ecos sem ver a boca que articula as palavras. De perto, Lucyna é uma mulher como qualquer outra, ambiciosa, é verdade, que defende seus próprios interesses, mas não patológica. Jesse não poderia entendê-la, assim como a própria Luba também não chega a perceber muito bem o alcance de seus atos. Remo vê a história com mais lucidez. Não tem tantos escrúpulos quanto a corrupção e luxúrias fora do convencional, embora não seja dado a praticá-las habitualmente. Ele mesmo se submete, depois dos anos de aprendizado. Sedimentou experiências não programadas, tentou se enquadrar por atos, palavras e obras, até compreender que, numa empresa como aquela, jamais conseguiria pôr em prática suas teorias igualitárias e humanistas a não ser com Luba e o Monteiro, muito próximos dele. Equacionados os problemas de consciência, ri um pouco dos estertores de sua mulher, uma utopista de carteirinha, como ele diz quando quer irritá-la.
Luba sabe muito sobre histórias de certo e errado, relativismo e crimes sem castigo. Sem saber, Remo exerce uma função didática sobre ela, que aprende por osmose uma atitude calculadamente cínica diante dos acontecimentos. Para defender o emprego, ele teve que lidar com tudo que havia renegado na juventude. Aprendeu a apertar mãos que lhe pareciam sujas, sorrir para quem numa revolução o teria eliminado sumariamente; para culminar, sua vida e a vida de sua família dependem de pessoas que jamais teria escolhido como amigos. Luba e o Monteiro viajam em seu próprio barco e ele lhes indica a rota mais segura no mar de abrolhos do qual tiram o peixe de cada dia. Você e a Jesse têm muito em comum, diz Remo a Luba. São duas puritanas, cada uma a seu jeito e por suas razões. Mas duas puritanas. E não me faça essa cara de quem não está nem aí. Hum, faz ela, altas novidades. Nunca tinha te visto falar assim. E o que é mais que nós temos em comum?
Ele parece um pouco embaraçado e Luba se mexe na cadeira, com um jeito de jaguatirica à espreita. Nesses momentos pressente que ele se abandona um pouco, e aproveita para cercá-lo, brincar de leve com ele e se dar o prazer de um jogo que cabe no espaço de suas salas, um jogo de pequenos golpes que têm que ser certeiros. Não olha diretamente para ele. Segue com os olhos o movimento do trânsito pela avenida e se estica para ver a nesga de mar no canto da janela. Para depois o olhar no obelisco. Pergunta-se para que serviria e logo lhe ocorre que podia ser usado como um pau-de-sebo para os aspirantes ao poder e à glória. Desde que tivesse lá em cima um pacote misterioso que ninguém ia saber o que seria, ela propõe, uma caixa de bombons, uma fralda suja ou dez milhões de dólares. É possível que desse resultado, ele admite. Mas além de divertir a gente durante algumas horas, para que mais serviria? Não ia ser nada divertido ver o Marcondes escorregar de lá com a bolada na mão. Você subiria? – ela pergunta, minutos depois, e Remo sacode os ombros sem responder. se a Jesse te pedisse? Ele levanta os ombros e diz, Ela bem que me aporrinha às vezes. Luba sorri: Jesse tem o poder. Algum poder, ele responde, esmagando um cigarro no cinzeiro. Algum poder – e lhe lança um daqueles olhares que a fazem flutuar em fantasias durante o resto da semana. Luba volta então para sua sala com o sentimento de uma jaguatirica que deixou fugir a caça.
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Se tivesse ouvido os conselhos de vovó, Luba não precisaria agora estar preocupada com essa teia interminável que se irradia de seu emprego. “As mulheres nascem para o lar”, repetia vovó Emília, exemplo de matrona realizada sem nunca ter dado um passo em direção ao mundo mau e pecador que via passar, primeiro pela janela ensolarada do sobrado de esquina em que vivera tantos anos, e no final pela janelinha da TV que jogava o mundo em seu quarto perfumado de alfazema. “As mulheres que merecem esse nome vivem sua vida como num santuário”, e quase sempre citava um trecho que ela dizia ser do Livro dos Reis. Mas vovó Emília tinha vivido outra vida em outro mundo. Não tinha conhecido a companhia, as tantas tonalidades do bom e do mau, os reflexos do vidro desdobrando a realidade e a frieza do aço desnudando-a. Não tinha tinha precisado viver anos de sua vida em um lugar muito diferente de sua casa; não sabia o poder de um olhar enigmático, captado e decodificado num momento de angústia; não sabia o que era ansiar por uma troca de palavras em off nem tinha jamais provado um café temperado com segundas intenções. Não sabia o que podia querer dizer passar uma semana na expectativa de perder o emprego e sofrer calada – talvez sorrindo – uma injustiça ou uma ingratidão sem reparações. Teria sido feliz assim? Não se acostumaria, e se a visse agora talvez chorasse por ela. Não aprendera a viver com o desassossego e o medo, ela, que lembrava cada arrepio dos tempos de namoro e das festas de fim de ano, das formaturas ao som de Waldir Calmon e Ed Lincoln, das emoções de cada vestido novo, cada olhar cruzado nos salões do Hotel Glória ou do Copa. A avó tinha trinta anos quando o rock’n’roll apareceu no Rio; tinha visto os primeiros pares, até aprendeu uns passos nos braços de vovô Eugenio, que não era homem de ficar perdendo tempo com banalidades, e logo condenou o ritmo como desprezível. Vovó não se mostrava abalada com esse tipo de coisa. Mesmo que ainda restassem brasas em seu sangue novo e ardesse secretamente por mais alguns daqueles passos, não dizia nada. Podia engolir em seco no começo, mas logo se habituaria à ideia de que, se Eugenio não gosta dessas coisas, não adianta teimar, é temperamento dele. E quando mamãe ousou insinuar que era preciso dar atenção aos desejos dela também, vovó riu e acarinhou o rosto da filha como se fosse uma menininha inexperiente, embora mamãe já tivesse emplacado os cinquenta.
Às vezes Luba se pergunta se vovó teria mesmo sido feliz, mas não sabe onde encontrar a resposta. Deve ter sido feliz a seu modo, com certeza se sentia uma mulher e tanto e gozava com o marido, porque ele jamais deixara de mostrar interesse e grande carinho por ela – flores por qualquer motivo, jantares fora, visitas e compromissos sociais, imensos presentes nos aniversários e jóias em todas as ocasiões especiais. Depois dos trinta anos de casados, sucederam-se visitas anuais à Europa (vovó e vovô gostavam especialmente da França e da Itália), passeios pelo Sul do Brasil, praias do Nordeste, casa de praia em Arraial do Cabo e um chalé em Itaipava para tomar vinho com raclette ou chás intermináveis junto à lareira. Vovó não podia mesmo se queixar. Para dar vazão à criatividade, ela redecorava a casa de cinco em cinco anos, mudava tudo, da cor das paredes à roupa de cama; pintava quadros a óleo e aquarelas de grande delicadeza, bordava brancos lençóis de linho que depois ficavam cheirando a hóstia no gaveteiro antigo do quarto.
Mas Luba cisma sobre o que estaria por trás daquela aparência de conto de Katherine Mansfield. Imagina também que Jesse deve ter como ideal de vida ser igualzinha a vovó Emília, e se diverte com a diferença entre vovô Eugenio e Remo, esse homenzinho malicioso e sempre pronto a contar piadas que deixariam vovó ruborizada. Compara mentalmente Remo e vovô atuando em seus respectivos postos de trabalho (vovô era dono de uma fábrica de compotas e mais tarde ampliou seus negócios e se tornou dono de tanta coisa que ela já nem sabia direito de quê). Como seria o relacionamento dele com seus empregados, como agiria nas greves que aconteceram várias vezes, com os amigos que poderia ajudar, e que amigos seriam esses. Seriam pés-rapados como o Gilberto, caras de passado duvidoso como o Monteiro? Não consegue imaginar vovô Eugenio beneficiando alguém que não pertencesse a sua própria classe, a seu mundo, um igual, compadre, amigo de infância, parente de futuro promissor. Enquanto Remo resgata o emprego de um companheiro de luta, ainda que ele pertença ao que vovô chamaria sarcasticamente de populacho, ela se lembra de vovó preocupada porque o doutor Lemgruber, muito mais rico do que eles, estava para ser destituído do posto de presidente do banco onde trabalhava, ou porque o Joviano, filho de um amigo fazendeiro de Goiás, estava saindo do sério, em vez de aproveitar o futuro dourado que o esperava, e engravidara a filha de um compadre de Montes Claros, o qual o ameaçava de morte porque o fedelho não se dispunha a casar com a moça e já andava de amores com uma empregadinha, “mulata e debochada como todas as de sua laia”.
Luba se ajeita na poltrona da sala e olha a televisão sem ver. Não precisa do emprego, a rigor. Além da casa, herança dos pais, tem uma bela pensão deixada por Rômulo, o marido coronel, bem mais velho que ela, já viúvo quando a pedira em casamento. Suspira diante da janela, vagamente ferida em algum ponto remoto do espírito, e o antigo alagamento do plexo volta a se manifestar enquanto ela lembra a expressão nada sublime dos olhos de Remo. Que às vezes parece guardar uma brasa prestes a inflamá-la. No prédio ao lado, alguém ouve uma música que diz “e vê se a febre dele, guardada em mim, te contagia um pouco…”

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Não entendo, Jesse diz, largando uma casca de maçã no baldinho de lixo sobre a pia da cozinha, não entendo que graça vocês acham em ficar vivendo em função do trabalho vinte e quatro horas por dia e ainda por cima sonhar com o trabalho enquanto dormem. Vocês quem? – ele pergunta. De quem mais você está falando? Ah, não sacrifica, você me entendeu. Chega perto dele, aconchega a cabeça em seu pescoço e respira quente junto da pele, de um jeito que ela sabe ser decisivo. Ele no entanto a afasta um pouco. Parece aborrecido. Resmunga alguma coisa que Jesse não chega a identificar. Em silêncio, come sua maçã em sossego, acomodada na cadeira da copa, depois joga as pevides no lixinho e se afasta em silêncio. Num momento como aquele, o melhor é ficar quieta e dar-lhe um gelo sem arrogância que pode fazer com que ele volte ao diálogo. Remo no entanto se aloja diante do computador e trabalha até tarde da noite. Só quando está para deitar olha de novo para Jesse e arrisca: Tenho que acordar cedo amanhã. O Marcondes quer esse projeto pronto segunda de tarde.
Só na noite seguinte, depois de trabalhar todo o domingo e mal tocar no ensopadinho que ela trouxe do restaurante da esquina, começa a deixar sair as palavras represadas. Jesse sabe o que ele vai dizer, porque nada muda naquela companhia; exigências, trapaças, excessos e iniquidades se repetem há muitos anos com poucas variações. O trabalho sujo é invariavelmente jogado sobre quem sabidamente dará conta dele por não ter outro jeito; o trabalho espinhoso sobre quem comprovadamente o realiza com eficiência; o trabalho sigiloso sobre quem tem muito a perder se não guardar segredo. Remo parece corresponder a todos os perfis, e isso lhe garante uma renda acima da média e algumas gratificações apreciáveis de vez em quando – porque quanto mais dinheiro você carreia para as mãos do chefe, mais se habilita a ser gratificado. Sacrificar sábados e domingos é um tributo a pagar, e Jesse também aprendera que as compras durante a semana podem compensar alguns percalços.
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A morte de Rômulo tinha posto um ponto final irrevogável na felicidade tranquila de sua vida em comum. O cotidiano passara a ter outra qualidade, já não admitia distrações. por sua vez, morte de Cachu tinha mudado uma peça de lugar no xadrez do dia-a-dia, como se a rainha tivesse ficado vulnerável e fosse preciso movimentar as peças com mais atenção para salvar o jogo. Pelo lado do trabalho, desconfia muito que suas vagas pretensões, que nem chegam à categoria de sonhos, estão se desfazendo no ar.
O shopping está cheio de gente que vai e vem sem parar. Entra pela enésima vez na pizzaria do canto. Às vezes chama alguém para acompanhá-la, mas não nesse dia. Não quer uma solidão entediada; não está mal com as pessoas, como acontece de vez em quando. É que pressente naquele momento a chegada do que ela chama descida à cripta. Precisa estar só e pronta, alhear-se um pouco no meio das vozes e dos rostos, procurar um ambiente onde se sinta à vontade, onde haja mais que estranhos à volta. As pessoas na pizzaria, excetuando o garçom de sempre e uma ou duas, são desconhecidas. Mas o inexplicável está muito perto e isso a deixa um pouco ansiosa, porque renova uma oportunidade além do dia-a-dia, remove algum limite. Talvez o mero pensamento da morte tenha mudado tudo nessa direção. Que inusitada direção será essa, que lhe põe na boca um gosto de subterrâneo, de umidade recém-descoberta e a predispõe a algum segredo, uma verdade dissimulada e espantosa sob o que parece tão claro e tão conhecido?
Ou, ao contrário, talvez a simplicidade com que tudo acontece seja a grande descoberta que pode varrer as suspeitas de maravilhamento ou horror que nos acompanham pelos lugares do mundo. Mas nesse caso fica suspenso todo o lado mitológico da coisa. A poesia se recolhe às pedras e aos caracóis nas paredes de Manoel de Barros e nada além deles faria sentido. Talvez seja mesmo assim, mas então para que tanto sofrimento? Se a rainha não depende do rei para nada, se toda a consequência de sua tomada é ficar ausente do tabuleiro e mergulhar na escuridão para sempre, restar ao rei somente um vazio: nem consolo, nem fantasma, nem saudade, e qualquer peão pode tomar o lugar da rainha desaparecida.

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Remo dorme muito mal algumas vezes, por causa do sonambulismo. Jesse já o surpreendera andando pela casa de short e chinelos completamente adormecido. Já o pegara tentando guardar o gato na geladeira, enrolando a cortina da sala e acendendo e apagando o abajur da cabeceira durante o tempo em que ela sonhava estar diante de um farol numa ilha deserta. Mas o pior tinha acontecido na inesquecível noite de frio em que ele cismou de mijar da varanda na janela do coronel reformado do andar de baixo. O homem tinha acordado com o barulhinho na janela do quarto e ainda levou uns respingos no nariz.
No dia seguinte ao da meditação de Luba na pizzaria do canto, como em resposta a suas cogitações, ele conta, entre risos que o deixam sem fôlego, que tinha mordido o dedo de Jesse enquanto sonhava com um cachorro-quente cheio de molho e gergelim. “Eis o que resta do rei”, ela pensa, rindo também. “Ele se gaba de ser sonâmbulo. Ao menos isso escapa de seu controle. Ao menos aí pode se dar ao luxo de ser irresponsável.” Lucyna ri com gosto, mas o gosto de Lucyna não é o mesmo. O Monteiro tem outros casos para contar, Gilberto também conhece um homem que… O dedo dela ficou vermelho? quer saber Cida, a nova secretária do Marcondes. O doutor Marcondes vai chegar a qualquer momento, observa Lucyna, e Cida dá meia-volta em direção a sua sala com o recado nos ouvidos e um grão de arroz entre os dentes, que ainda não escovou depois do almoço.
O grupo se dissolve e na sala só ficam Lucyna e Remo, além de um resto de riso. Entram em algum assunto que ela sempre resolve em falas impassíveis, neutras, discretamente articuladas apenas aos ouvidos do interlocutor. Pouco lhe importa na verdade qualquer ataque de sonambulismo, ira, impaciência ou alegria inoportuna de quem quer que seja: ali é outro lugar, o lugar de saber apenas o que é preciso para fazer andar a roda.
Um dos grandes problemas do Remo é que ele só vê as coisas depois que elas acontecem, pondera o Monteiro olhando o monitor. Ele não é insensível, diz Gilberto. Não, insensível não, ele é crédulo, explica Monteiro, salvando uma mensagem do correio eletrônico para o diretório com seu nome. O outro mastiga umas palavras ininteligíveis e Monteiro ri. Você tem raiva de quem fala mal do Remo, não é não, Gilberto? Mas todo mundo gosta muito dele, o outro responde meio ríspido, para disfarçar a embaraço. Eu sei, mas sabe por que ele é crédulo? Porque acredita que todos são iguais a ele, acha que todo mundo é leal, amigo, boa gente. É isso. E é por isso que o dele fica na reta. Mas está acontecendo alguma coisa com ele? O diretor, de novo?
Monteiro se levanta e sai para atender ao telefone em outra sala. De São Paulo avisam que o contrato fechado com a Alivenida, consultoria do Machado Alhambra, está pronto para ser assinado. “O Remo”, descobre Monteiro enquanto desliga o telefone e anota o recado, “o Remo é tão esperto que faz os outros acreditarem que ele é um crédulo.” Era o quarto contrato conseguido por Remo nos últimos dois meses, e com isso ele garante sua estabilidade na empresa e desarma os argumentos e as ratoeiras preparadas pelo adversário. “Ou pode ser que nem uma coisa nem outra. Pode ser – repensa o Monteiro – que ele seja movido a perigo.”
No dia seguinte, almoçando com o pessoal da equipe, escapulidos aos olhos de Lucyna e Marcondes, o Monteiro dispara: Você pula corda melhor quando se bate foguinho. Não, responde Remo, levantando a tulipa de chope para um brinde, eu bato foguinho para os outros pularem.
Luba participa de um ou outro desses almoços. Mas muitas vezes prefere ficar com uma amiga bissexta no pequeno restaurante da cobertura. Acaba tomando chope demais na companhia deles; eles falam sem parar, é preciso estar ou fingir estar muito alegre para entrar no espírito daquele bando de fugitivos, e nem sempre a bebida consegue esse efeito. Eles também fingem, bem sabe; tinham escolhido fingir. A diferença é que para eles não parece haver outra saída. Ela sabe bem a que distância está do abismo e já não faz questão de manter a peteca sempre no ar. Mas para Remo e Monteiro as coisas são mais duras, e pensar nisso provoca nela um surto de compaixão, porque eles têm muito mais o que perder. É complicado falar nesse assunto, roça a franqueza rude, pecado maior para um profissional urbano e cioso de seu lugar ao sol. Mesmo que o sol não apareça há dias. Remo se deixara sugar, e agora está prestes a entrar na fase de ser dissecado. E uma vez que estão juntos naquele barco, a náusea é de todos. Começa na hora de levantar, toma ritmo na hora do banho e vira frenesi com a chegada à companhia.
Onde é que você se mete nos sábados à noite? – pergunta o Gilberto, que desempenha múltiplas funções na companhia e recebe um salário de contínuo. Olhar vago. Eu? – ela diz afinal. Fico por aí. Eu também fico por aí. Durmo depois do almoço, vou ao cinema quando vale a pena, durmo cedo. Por quê? – Luba está curiosa com o rumo da conversa. Nada. A gente podia… Olha o Gilberto meio surpresa, meio divertida, e sacode a cabeça. Só não é vago pensar na companhia, entrar na companhia, reunir-se, discutir, planejar, fechar convênios, assinar contratos, levar propostas, chegar a desoras, ter sonhos continuadores e longos, cúmplices, atormentados. Ser sonâmbulo. Ainda que você sorria continuamente a seus superiores, seus sentimentos serão descobertos por causa daquele dia em que você olhou com o canto do olho, ou esqueceu o papel que lhe parecia sem importância ou daquele outro em que você se lembrou deles quando estava cagando no banheiro. O corvo voa de armário em armário olhando para você, “nunca mais”, e você deseja que um incêndio consuma tudo menos os amigos, que estarão fora almoçando juntos. Luba sangra de vontade de ir mais longe, deixar que aconteça alguma coisa de errado. Eles dois precisam muito disso.

Remo conserva um brilho inacreditável no olhar. Ela o olha com atenção dissimulada: ele já não passa de uma cigarra seca, dessas em que se tropeça no verão debaixo das árvores, e no entanto ainda parece vibrar um pouco. Perceber isso se torna o maior de todos os martírios cotidianos. Ele fora uma esperança, tinha sido a maior de todas, tinha sido a mais constante, e Luba fica sôfrega à espera do sinal de cada dia: se ele ainda sabe querer bem, ainda a olha com olhos cúmplices, ainda afaga seus cabelos e bate de leve em seu ombro como quem diz vamos, estamos aí, não vamos desanimar. Houve um tempo em que não teria se surpreendido de ouvi-lo dizer “Nós temos um ao outro”. Não tem certeza de que tenha sido justo esperar tanto. Reluta em não esperar nada mais que um salário decente no fim de cada mês. Agora entramos em estado terminal. Até a ilha do Caribe parece ter sido esquecida. Para ele basta o pão seco que mata a fome, o vinho bruto – no caso o chope – que atordoa um pouco e faz tudo mais leve, com um toque de humor flutuante e fictício. Ele não se permite e por isso não lhe permite, e ela fica um pouco interditada, como se não soubesse para onde ir.
Sabe bem que ir além da funcionalidade é uma armadilha, que isso agora o incomoda mais do que uma grosseria. Ele não recebe o que não pode pagar. Ele não a acompanharia na dança, não partilharia a refeição, não transgrediria nunca os sagrados princípios da objetividade e da exigência legítima. Dois meses depois daquele jantar em casa dele, quando a pressão no trabalho aumentava dia a dia e ela quebrava a cabeça para tornar a vida dele mais leve, dera-lhe um livro de presente, um livro que era uma delicada filigrana de palavras encadernadas numa capa azul-escuro com letras brancas. Ele havia olhado com estranheza o presente, agradecera muito formalmente e nunca mais tocara no assunto. O que isso queria dizer? O que ela estaria querendo? Ali, um presente só se justifica se subsidiar alguma manobra comercial, engraxar a roda da fortuna, adubar o pé de dinheiro, representar interesse financeiro ou político em jogo. Não sendo assim, pode esconder intenções aliciadoras, escusas, secretas, sombrias ou suspeitas e é quase obsceno. Pode ser o começo de uma transgressão, de um desvario qualquer, um deslize. Pode ser tanta coisa indesejável, que é melhor não oferecer nada a não ser o trivial, aprovado e legítimo; o que a lei autoriza, a lei que todo mundo sabe o que é e o que reza. Teve certeza, naquele dia, que Remo temia que ela quisesse repetir o encontro, o que poderia trazer-lhe ainda mais problemas também em casa. Naquele momento, seria um grave incômodo ter que lidar com uma emoção fora do lugar. Também teria sido bem dele alguma piada de mau gosto sobre trepar, quase uma manifestação oficial de lealdade. Chegou a ter vontade de abrir o jogo, esclarecer, explicar o que pretendia com o presente, mas parou antes. Não seria muito fácil explicar o que a movia; nenhum sentimento é de todo claro. E no entanto ele mesmo nem sempre fora tão insuspeitadamente escrupuloso e desconfiado: e os momentos de ternura ferozmente disfarçada que só ela parecia perceber? E os gestos que escapavam de suas mãos, as carícias que ele não conseguira controlar? Será que tudo não tinha passado de puro interesse profissional?
Luba tem medo de descobrir naqueles indícios um modo de usá-la, de tirar proveito de sua habilidade no trabalho. Sente-se boba, exausta e confusa. As pernas ficam frouxas, o coração desordenado e a vista escura. Respira fundo, mas a coisa volta como uma onda até que acha melhor se deixar engolir e descobre a que ponto está forjada por ele, entregue ao arbítrio dele. O choque é tão violento que tem uma vertigem, ao mesmo tempo em que uma náusea improrrogável toma conta de seu estômago. Meio trôpega, corre para o banheiro. Volta para a sala pálida, fraca, cambaleando, e encontra-o procurando alguma coisa em sua mesa. Luba – olha para ela e se sobressalta, que cara é essa? Você está horrível! Mas logo volta ao assunto, Sabe onde ficou a relação dos inscritos no simpósio do Marcondes?
Ah, que espécie de coisa é aquela? Que espécie de desumanidade? Que espécie de gente? Em vez de responder, senta-se diante dele e sorri do gosto ruim que ainda lhe sobe à boca. Olha pra mim, Remo. Ele parece desconcertado, logo escandalizado. Olha pra mim, Remo. Fica parado, mudo, a boca meio aberta, uma crítica suspensa nos olhos. Apesar de tudo, por causa de tudo, ri dele. Você parece um inspetor de alunos em certas horas. Como? Que é que você está dizendo? Que foi que aconteceu? Está me gozando? Ela estende as pernas por baixo da mesa, cruza os braços e fica olhando para ele sem sorrir durante alguns segundos, e depois pergunta: Essa sua raiva é endêmica ou epidêmica? Quem tem culpa de sua raiva senão você mesmo? Ou será que você gradua sua raiva pelo humor do diretor-geral e de Lucyna? Que foi, Luba? Que é que está acontecendo? Você sabe de alguma coisa que… Que culpa é essa? Que é que está querendo dizer? Eu gosto das coisas claras, você sabe. Sei. O que é? Fala, se é sobre o comunicado… – mas para de falar, perplexo.
Ela se sente resplandecer – sim, sim, sabe, sabe muito. Sempre tinha sabido, e agora está na hora de deixar que ele perceba. Mas não pode lhe contar, porque não é coisa que se explique. Você não faz a menor ideia? Não mesmo? Ele parece cada vez mais confuso, mas agora começa a reagir do modo mais previsível: franze a testa como o Marcondes quando é desafiado. A muralha está erguida, firme e sólida, sem remédio. E nesse caso, nada mais importa a Luba naquele lugar de castigos e agruras. Fique aí então. Fique no mausoléu das múmias. Você está morto. Mais morto do que Cachu. Ele olha para ela, incrédulo. Luba não vê o gesto inacabado com que pretende chamá-la de volta à realidade, ao espaço daquele momento. Nem mesmo olha para ver sua reação: levanta, pega a bolsa na estante ao lado da mesa e sai como se a sala estivesse vazia.
Na pizzaria do shopping encontra o velho casal do outro dia, e eles conversam mansamente. Em volta há um burburinho em que deseja ardentemente se integrar. Quer voltar à vida, viver como todo mundo, e tem medo de não saber mais como fazer isso. O garçom de sempre vem a seu encontro e lhe sorri: Vai querer a míni de novo? Com suco ou com chopinho? Eu quero, respondeu sorrindo e falando bem devagar, eu quero que você me arranje uma boa companhia. Alguém que goste de conversar. Ele a olha com espanto, mas logo lhe estende o cardápio e faz que sim com a cabeça, um pouco ruborizado. Se eu servir – responde, com a veia da testa estufada.

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